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A Voz da Experiência: Rinaldo “Formiguinha” Analisa a Evolução do Rodeio Brasileiro e Cobra Valorização dos Antigos Campeões

 

A Voz da Experiência: Rinaldo “Formiguinha” Analisa a Evolução do Rodeio Brasileiro e Cobra Valorização dos Antigos Campeões

Em entrevista exclusiva ao “Minuto do Rodeio”, o campeão de Barretos de 1996 relembra sua trajetória de 54 títulos, analisa o impacto da tecnologia nas arenas e propõe a criação de uma Galeria dos Campeões no maior rodeio do país.

Por Eugênio José
Colunista e Especialista em Marketing de Rodeio

O lombo de um touro bravo exige mais do que técnica; exige alma, resiliência e uma capacidade quase sobre-humana de lidar com a pressão. Poucos homens personificam tão bem essa essência quanto Rinaldo da Silva, eternizado nas arenas como “Formiguinha”. Natural de Tupã (SP), Formiguinha construiu uma das carreiras mais vitoriosas e respeitadas da história do rodeio brasileiro, acumulando um impressionante cartel de 54 títulos, 50 motos, 9 carros e 2 caminhonetes.

Em um bate-papo franco e carregado de nostalgia técnica no canal Minuto do Rodeio, o ex-competidor e atual juiz abriu o jogo sobre suas origens, a experiência internacional nos Estados Unidos, a diferença entre as gerações de atletas e, principalmente, a necessidade urgente de resgatar o respeito à história do esporte no Brasil.

Da Lida com o Gado à Consagração em Barretos

A história de Formiguinha começou na simplicidade do trabalho de campo, lidando com gado ao lado de Paulinho Bonito na propriedade de Seu Tininho Zé Ramalho. O talento bruto foi descoberto quase por acaso, montando garrotes escondido.

“Um dia o patrão me pegou montando em Quintana. Achei que seria mandado embora, mas ele me perguntou se eu gostava daquilo. Ele me mandou escolher dez garrotes e montamos uma arena na chácara para eu treinar”, relembra o campeão.

A transição para o profissionalismo foi rápida. Após estrear com um terceiro lugar em Irapuru e superar a desconfiança da comissão organizadora em Herculândia — onde conquistou o segundo lugar montando um “touro de repete” —, Formiguinha conquistou seu primeiro título profissional na Zona Leste de sua terra natal, Tupã.

O ápice de sua carreira como competidor ocorreu em 1996, quando conquistou o título de Campeão de Barretos, a “Meca” do rodeio nacional.

“Naquela época, a televisão nos colocava no Fantástico ao vivo. Quando cheguei em Tupã, desfilei em caminhão de bombeiros. O respeito era imenso em qualquer lugar do Brasil ou do mundo.”

O Rodeio de Ontem vs. O Rodeio de Hoje: O Impacto do Comodismo e da Tecnologia

Como juiz de rodeio ativo, Formiguinha possui autoridade técnica para comparar as eras do esporte. Para ele, a tecnologia trouxe conforto, mas também gerou um certo comodismo na nova geração de competidores.

A Cobrança Interna vs. O Foco na Imagem

No passado, a falta de equipamentos de proteção (como coletes e capacetes) e as condições adversas dos alojamentos forjavam atletas extremamente focados e competitivos.

“Se eu caísse de um boi, eu ficava louco, chorava, brigava comigo mesmo. Hoje, vejo competidores que caem e a primeira preocupação é com a foto para a rede social. Falta aquela cobrança interna de querer ser o melhor.”

A Genética dos Touros e a Postura dos Atletas

Formiguinha destaca que, embora a genética dos touros tenha evoluído absurdamente — criando animais com pulos impressionantes —, a postura dos competidores diante de touros difíceis mudou.

“Na nossa época, nós brigávamos para montar no boi duro, no boi difícil. Hoje, se um touro é muito complicado, os competidores evitam. Falta aquela raça de querer enfrentar o perigo.”

A Realidade Financeira e o Mercado de Patrocínios

Outro ponto crucial debatido na entrevista foi a desvalorização real das premiações. Formiguinha aponta que, proporcionalmente, o poder de compra dos prêmios do passado era muito maior.

“Ganhar R$ 5.000 naquela época era um dinheirão. Hoje, o cara ganha isso e gasta quase tudo para ir e voltar de alguns rodeios.”

Ele também analisa a diferença cultural entre o público brasileiro e o norte-americano, o que impacta diretamente o volume de patrocínios:

  • O Público de Show vs. O Público de Rodeio: Nos EUA, o público consome a cultura country de forma ativa — compram camisas, botas, chapéus e apoiam as marcas patrocinadoras. No Brasil, a grande massa consome o “show sertanejo” e não o rodeio em si.
  • Retorno de Mídia: Enquanto marcas americanas investem pesado (como cotas de patrocínio de US$ 15.000 anuais para competidores) porque sabem que o público consome seus produtos, no Brasil o mercado de patrocínio direto ao atleta ainda é tímido e muito concentrado.

Uma Proposta de Respeito: A Galeria dos Campeões de Barretos

Uma das declarações mais contundentes de Formiguinha foi sobre o tratamento dispensado aos campeões do passado nas grandes festas nacionais. Ele relata que muitos nomes históricos encontram dificuldades até mesmo para acessar o recinto de Barretos.

“Eu vou lá e cobro o meu espaço, mas conheço campeões de Barretos que chegam na portaria e são tratados como um ‘Zé Ninguém’. Isso é uma falta de respeito com quem construiu a história daquela arena.”

Como solução prática e mercadológica, Formiguinha sugere:

  1. Criação de um Espaço Dedicado: Uma área física (como uma Galeria dos Campeões ou um camarote específico) para receber os antigos campeões.
  2. Credenciamento Vitalício Facilitado: Garantir que aqueles que já deram o sangue na arena de Barretos tenham acesso livre e honroso ao evento.
  3. Resgate Histórico: Utilizar a imagem desses ídolos para promover a tradição do esporte entre as novas gerações.

Fé, Pé no Chão e a Despedida das Arenas

Formiguinha encerrou sua carreira montando aos 42 anos, logo após ganhar mais uma moto. Tomou a decisão de forma consciente, preservando sua integridade física e sua história. Hoje, aos 49 anos, vive uma vida tranquila, controlada e sem luxos em Tupã, sempre pautada pela fé inabalável em Nossa Senhora Aparecida.

“Não sou um cara rico, mas tudo o que tenho foi conquistado no lombo do boi, com muita luta e com a graça de Deus. Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo exatamente do mesmo jeito.”

A entrevista de Formiguinha é um lembrete vital para organizadores, tropeiros e competidores: o rodeio é um espetáculo grandioso, mas sua força reside na verdade da arena, no respeito mútuo e na preservação da memória de seus verdadeiros heróis.