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O Patriarca do Cutiano: A Trajetória Lendária de Alaor Ambrolino e Seus Mais de 50 Anos de História no Rodeio

 

Fundador do rodeio de Bambuí, pioneiro do madrinhamento em Barretos e pai da renomada Ana Cláudia Madrinheira, o tropeiro de 84 anos partilha memórias de poeira, estradão e paixão pelas arenas.

BAMBUÍ, MG — Na sede da Cia Dallas, em Bambuí (MG), o tempo parece correr em um ritmo diferente, compassado pelas batidas dos cascos e pelas memórias de quem ajudou a erguer as bases do rodeio brasileiro. Ali, aos 84 anos de idade — mas com a vivacidade de quem diz ter vivido 168 anos de tão bem aproveitados —, o Sr. Alaor Ambrolino resgata as páginas de ouro da história do Cutiano e do estilo de vida sertanejo.

Tropeiro, domador, madrinhador e fundador, Alaor é uma lenda viva cuja trajetória se confunde com a própria evolução do esporte no país.

O Começo de Tudo: A Doma e a Fundação da Tropa em 1973

A relação de Alaor com as arenas começou de forma rústica, muito antes das grandes estruturas de metal e dos painéis de LED que conhecemos hoje. No início, ele domava cavalos e trabalhava nas tradicionais “touradas” da época. A transição para o rodeio de fato ocorreu em 1973, ano em que comprou seus primeiros animais e estabeleceu sua tropa.

Embora tenha chegado a montar por cerca de dois anos, Alaor logo percebeu que seu verdadeiro dom não era competir, mas sim “fazer cavalos” — a arte de selecionar, treinar e cuidar de animais de alto desempenho para o rodeio. Desde 1973, a tropa nunca mais parou, consolidando-se como uma das companhias mais antigas e tradicionais em atividade no Brasil, antecedendo grandes nomes do setor.

“Eu montei pouco, uns dois anos só. Mas o meu negócio mesmo era fazer cavalo. Buscava animais em Naviraí, Campo Grande, no Uruguai… Cheguei a ter uns 70 cavalos e 60 bois aqui. Fazia quatro festas em uma semana só, mandando tropa e boiada para diferentes cantos do país.”

Entre os animais que marcaram sua vida, destaca-se o lendário Paranavaí, um cavalo tordilho extremamente pulador adquirido logo no início de sua jornada, conhecido por derrubar os competidores mais duros da época. Atualmente, o Sr. Alaor aponta o cavalo Paraguaçu como um dos grandes destaques de sua tropa.

O Pioneirismo no Madrinhamento e o Orgulho de Pai

Além de fornecer animais de alto nível, o Sr. Alaor Ambrolino escreveu seu nome na história do rodeio de Barretos como um dos pioneiros do madrinhamento (o trabalho dos salva-vidas a cavalo, ou pickup men). Ao lado do lendário Pedro Dragão, Alaor protagonizou momentos de pura audácia na maior arena da América Latina.

“Nós madrinhamos muito tempo no Barretão. Teve uma vez que o Pedro Dragão, do jeito doido dele, falou: ‘Vamos tirar o freio desses cavalos e trabalhar só com a cordinha no pescoço’. E nós trabalhamos no Barreto assim, só na cordinha, sem freio nenhum.”

Esse legado nas pistas de madrinhamento não parou nele. Com o apoio incondicional do pai, sua filha, Ana Cláudia, iniciou na profissão com apenas 11 anos de idade. Hoje, ela é amplamente reconhecida como uma das maiores e mais respeitadas madrinheiras do rodeio brasileiro e mundial já que, madrinhou duas vezes nos Estados Unidos (2025/2026) motivo de imenso orgulho para o patriarca.

“Apoiei toda a vida, joguei ela para a frente. Ela começou com 11 anos e está aí até hoje. Sinto um orgulho enorme de ver a pessoa e a profissional que ela se tornou, respeitada e bem tratada em todas as cidades por onde passa.”

Histórias de Estradão: 95 Dias de Viagem e a Aventura em Portugal

A vida de tropeiro antigamente exigia uma resistência física e mental quase sobre-humana. O Sr. Alaor recorda com precisão as longas jornadas do “Estradão”. Em uma de suas viagens mais longas por terra, ele conduziu 1.200 cabeças de gado durante 95 dias, atravessando os estados de Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

As viagens também cruzaram fronteiras. Alaor levou animais para o Paraguai e participou de uma histórica comitiva de 63 pessoas que viajou para Portugal para realizar três semanas de rodeio e touradas, utilizando cavalos locais que se revelaram excelentes puladores.

E as viagens de caminhão eram uma aventura à parte:

“Naquela época, os bretes iam em cima do caminhão, os peões viajavam em cima da gaiola, de qualquer jeito. Tinha um caixotão embaixo da gaiola onde iam uns seis peões, e o resto ia lá em cima. E a gente viajava o Brasil inteiro assim, fazendo festas no Nordeste, em capitais como Recife, Natal, Fortaleza, e no interior como Caruaru e Petrolina.”

A Fundação do Rodeio de Bambuí e a Evolução do Esporte

Como um dos fundadores do rodeio de Bambuí, o Sr. Alaor testemunhou a transformação completa da festa local. Nos primórdios, as primeiras edições foram realizadas em um campo de futebol, com os cavalos amarrados diretamente em palanques. Posteriormente, no recinto, as barracas eram cobertas de sapé e os bretes de madeira precisavam ser fincados na terra a cada evento.

Ao analisar a evolução do rodeio, ele rebate o saudosismo que critica a modernidade e afirma que o esporte melhorou significativamente, especialmente no que diz respeito ao respeito e bem-estar dos animais.

“O rodeio não ficou ruim não, ficou bom. Antigamente não tinha esse negócio de 8 segundos. O peão tinha que parar no cavalo até ele parar de pular. Hoje, com o limite de tempo, ficou muito melhor para fazer e preservar os cavalos.”

Filosofia de Vida: “Mostrar a Qualidade, Não o Defeito dos Outros”

Mesmo sem habilitação formal (“carta”), o Sr. Alaor continua dirigindo, andando a cavalo pela fazenda e mantendo sua casa de portas abertas para peões, tropeiros e amigos do rodeio. Sua receita para a longevidade e para a legião de amigos que cultiva é simples e profunda:

“O conselho que dou para todo mundo é não ficar de cara feia, não ficar mal-humorado consigo mesmo. Com problema ou sem problema, a gente tem que ir para a frente e pensar positivo. Meu pai me ensinou a nunca falar mal de ninguém. Falar mal dos outros não adianta nada. Você tem que mostrar a qualidade, não o defeito dos outros.”

Ao ser questionado se mudaria algo em sua trajetória ou se carrega algum arrependimento, o velho tropeiro responde com a firmeza de quem honrou cada dia na poeira da estrada:

“Graças a Deus, não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. O rodeio é tudo para mim. Tudo o que eu fiz e faço é porque eu gosto.”

Ficha Técnica da Personagem:

  • Nome: Alaor Ambrolino
  • Idade: 82 anos
  • Atividade: Tropeiro, Criador e Selecionador de Cavalos de Rodeio (Cutiano)
  • Início na Atividade: 1973 (Bambuí – MG)
  • Destaques de sua Tropa: Paranavaí (histórico) e Paraguaçu (atual)
  • Legado Familiar: Pai de Ana Cláudia Madrinheira