Compartilhe

Leme transformou o impossível em realidade e conquistou o terceiro título pela PBR

Quando terminou o rodeio de Maringá (PR), na noite deste domingo, 18 de maio, onde trabalhei como comentarista neste final de semana, me despedi de todos e saí do estúdio em direção ao estacionamento. Era por volta das 23h00 e, para minha surpresa, estava chovendo.

Me lembrei de uma passagem de dez anos atrás. Era outubro de 2015, e uma chuva da mesma proporção caía no recinto da FICAR, em Assis (SP). Na época, eu prestava serviços de texto para o Circuito Rancho Primavera, e o Rogério Paitl me alertou sobre um garoto novo que estava entrando no circuito, chamado José Vitor Leme.

Começamos a entrevista debaixo da chuva e, depois, migramos para um quiosque para nos protegermos dos fortes pingos. Fiz a entrevista… e não publiquei.

Dias depois, viajei aos EUA para cobrir a PBR Finals daquele ano, ainda realizada em Las Vegas, onde J.B. Mauney conquistou seu segundo título mundial e se tornou o competidor mais rico da história da PBR. No mesmo final de semana, aqui no Brasil, José Vitor Leme conquistava seu primeiro título profissional, na cidade de Cândido Mota (SP). E, claro, aproveitei o gancho e publiquei sua primeira matéria como profissional das montarias em touros.

Hoje, dez anos depois, José Vitor Leme — entre tantos recordes — acaba de conquistar seu terceiro título mundial pela PBR. E mais: ultrapassou o próprio J.B. Mauney e se tornou o atleta mais rico de todos os tempos na montaria em touros, com 8,3 milhões de dólares. É também o primeiro atleta a ultrapassar a marca dos 8 milhões, algo jamais alcançado por qualquer outro competidor.

José Vitor Leme agora:

  • Empatou o recorde de títulos mundiais com Silvano Alves e Adriano Moraes;
  • Empatou também o recorde de três títulos da PBR Finals com Robson Palermo;
  • Obteve o maior ganho em uma final mundial, com 1,9 milhão de dólares;
  • Tornou-se o primeiro atleta a romper a barreira dos 2 milhões em uma temporada, com 2,3 milhões de dólares em 2025.

E agora vamos para a parte mais impressionante.
Cubro e escrevo sobre a PBR Finals desde 2005. Ou seja, são vinte anos fazendo isso. É algo que adoro, embora, nos últimos anos, tenha ficado cada vez mais difícil. Ainda assim, temos bagagem, vivência e conhecimento sobre o assunto.

Sempre respeitei a matemática. Mesmo quando a lógica mostrava o contrário, respeitei as possibilidades. E por dezenas de vezes escrevi:
“Fulano tem chances matemáticas, mas teria que vencer todos os touros e ganhar todas as diárias.”
Era algo que me fazia parar e pensar: “De jeito nenhum isso vai acontecer. É impossível.”

O mais legal era completar o raciocínio escrevendo:
“Além de fulano fazer tudo isso, ciclano e beltrano precisam não pontuar, não fazer nada nessa final.”
O que tornava o impossível ainda mais impossível.

Vi muitas viradas. Títulos ganhos e perdidos. Títulos perdidos e ganhos.
Porém, nunca na minha vida imaginei que esse raciocínio — de um cara vencer todos os rounds em uma final mundial — fosse se tornar realidade.

E aconteceu.
Um cara, no ano de 2025, chamado José Vitor Leme, venceu todos os touros.
E seus adversários simplesmente não conseguiram render, especialmente Dalton Kasel, que tinha tudo a seu favor. Ele precisava do mínimo — mas foi esmagado pela pressão máxima que Leme colocou sobre ele.
Leme não tinha obrigação de vencer. Montou tranquilo, foi vencendo touros e rounds, e ficou com o título por apenas 67,50 pontos de diferença. Ele conquistou 84,6% dos pontos disponíveis.

Fomos obrigados a acreditar no inacreditável.

Baseado nos dados desse novo formato (com temporada mais curta), os campeões até aqui sempre precisaram de três coisas:

  • Montar bem na temporada;
  • Não se lesionar;
  • Montar bem na final.

Esse tripé é básico para o título. Mas aí vem o danado do Leme:
Se lesiona, faz uma temporada abaixo do esperado, chega à PBR Finals em 18º lugar… e faz isso.

E não bastassem todos os feitos — desde sua primeira final mundial em 2017, os recordes com o Woopaa em 2021, e tantas outras conquistas — agora ele fez o impossível acontecer.

Acredito que fui feliz na resposta que dei sobre as chances de Leme, na sexta-feira antes de começar a final:
“Capacidade para vencer todos os touros ele tem. Pode acontecer? Pode (e aconteceu).”
Aí veio a segunda parte da resposta:
“Agora, os outros — principalmente Kasel — não fazerem nada? É meio difícil…”
Mas aconteceu também.

Quem imaginaria uma final tão atípica de Castro, Kimzey, Guiton, Crimber, Fielder e Kasel?
É muita gente que montou bem a temporada toda e não montou bem na final.

É por isso que o formato com muitos pontos na final é mágico.
Deixa tudo imprevisível.

E eu não esqueci de você, que em 2023 fez um monte de críticas sobre o formato, dizendo que foi injusto o Rafael de Brito ganhar e o Leme perder. E agora?
Seria justo o Kasel marcar a melhor nota do round ontem e o Leme perder, depois de tudo o que ele fez?

Essa é a mágica do jogo.
Ganha quem pega mais pontos precisos para vencer. E foi isso que Leme fez neste final de semana.
Venceu tudo. Todos os rounds. A final.

Sério.
Estou sem acreditar que ele fez isso, mesmo eu sabendo que ele fez.

Parece que ele não sabe apenas conquistar um título mundial.
Ele precisa conquistar de um jeito que ninguém mais vai conseguir repetir.
E, na boa?
Duvido que ele — ou qualquer outro — faça isso de novo.

Quando ele conquistou o título da PBR Finals em Las Vegas, pela primeira vez em 2017, e foi Revelação do Ano com apenas um evento disputado, escrevi um texto com o seguinte título:

“A história que José Vitor Leme escreveu em Las Vegas nunca vai ser repetida.”

Hoje, oito anos depois, eu só trocaria Las Vegas por Arlington.
Ninguém mais fará isso do jeito que ele fez.

Ele não nasceu para montar em touros.
Ele nasceu para superar o insuperável.

Esse foi terceiro título de Leme (2020, 2021 e 2025) o 15º título para o brasil, e Leme é o nono brasileiro a conquistar esse feito.

RAKING FINAL DA TEMPORADA (TOP 20)